"Não podemos perder o trabalho de base feito nas escolas"

Maria Adrião é mestre em Gestão e Políticas Públicas pela FGV/SP, foi palestrante do Encontro dos Coordenadores Nacionais do Projeto DST/Aids da CNTE, em Belo Horizonte (MG). Psicodramatista e Psicóloga, com vasta experiência em Educação em Saúde, Gênero e Juventudes, atuou como Assessora Técnica do Ministério da Saúde e coordenou programas dirigidos a jovens e projetos sociais ligados ao terceiro setor. Sua experiência inclui consultoria internacional para países africanos e há mais de 07 anos é Consultora do UNICEF. Maria Adrião concedeu esta entrevista para a CNTE.

Há quantos anos você está engajada na construção de políticas públicas para enfrentamento da Aids?
Há exatamente 16 anos. Comecei trabalhando na ONG Instituto Papai em Recife (PE), depois entrei na militância do movimento feminista e aí não saí mais! Desde então, atuo com políticas de direitos humanos, pensando em Juventude, Sexualidade, HIV/AIDS e Gênero.

Nesse tempo, quais os maiores avanços que você registra?
O avanço no tratamento que é muito recente, se considerarmos a história da epidemia no país, a sofisticação nos tratamentos oferecidos e também o acesso universal a eles. A consolidação dos movimentos sociais também é um avanço significativo: do movimento AIDS, do LGBTT, do movimento de Mulheres que se organiza e se articula com o campo da Aids e um avanço mais recente são as novas tecnologias de prevenção que dão mais opções para a população se prevenir (PEPs, PREPs, cincuncisão, entre outras).

E retrocessos? Quais os mais marcantes no seu modo de entender as políticas públicas? 
Falando de um contexto mais recente, o diálogo permanente que havia entre a sociedade civil organizada e o governo ficou muito enfraquecido. Também pontuo como retrocesso certo abandono no pensar as políticas de prevenção, com foco no marco dos direitos humanos, considero que relaxamos muito com relação a isso. Temos que lembrar da ascensão de uma onda conservadora e fundamentalista que impacta negativamente no trabalho de prevenção das DST/Aids, já que este trabalho é diretamente ligado a sexualidade, direitos e gênero. Finalmente, o abandono do SPE (Programa Saúde e Prevenção nas Escolas) que era um programa que já tinha estrutura, capilaridade em Estados e municípios nas escolas brasileiras e, por conta desse cenário todo, agora só existe no papel: não tem força, não tem dotação orçamentária e nem pessoas engajadas nele.

Os números da Aids no Brasil ultrapassam 700 mil casos. Na década passada houve uma redução gradual, mas na atual os números voltaram a crescer. Onde você situa as políticas públicas nessa realidade?
Em pouco mais de uma década o número de novos casos de Aids no país aumentou em 40% entre os jovens de 15 a 24 anos. Então volto a ponderar que houve, sim, certo abandono das formas que se provaram eficazes no caminho da prevenção, agravado pela onda de conservadorismo que faz com que os programas de prevenção para os jovens nas escolas não avancem.

E com relação às novas tecnologias para prevenção e enfrentamento, como avalia que estamos posicionados?
Sou muito aberta e flexível, acredito que conseguimos desenvolver e oferecer para a população um leque de possibilidades, mas apesar de tudo de novo que tem surgido, não podemos abandonar o uso do preservativo. A sociedade brasileira já está habituada ao uso da camisinha como principal forma de prevenção, então, não podemos perder esse trabalho de base que foi feito nas escolas e nos serviços de saúde. A gente precisa se articular, nos fortalecer no SUS, pois temos que estar na atenção básica de saúde.

Na sua visão, quem são hoje os principais atores na construção das políticas para a saúde no viés daquelas voltadas para as DST/AIDS?
O poder público, que é o Estado brasileiro, e suas representações nos estados e municípios, de fato continuam sendo os principais responsáveis pela execução das políticas públicas. Existe o engajamento de muitas ONGs Aids que, à ferro e fogo, continuam fazendo o seu trabalho, mas acredito que precisamos  fortalecer a participação das populações que sempre atuaram com a gente, ou seja, as profissionais do sexo, os jovens e todo o mundo da diversidade sexual, porque atualmente essas populações estão  participando mas apenas na perspectiva de “testar e tratar”, que é a principal estratégia do Ministério da Saúde, hoje em dia. E essa estratégia é importante para o controle da epidemia mas, volto a dizer, não podemos abandonar o trabalho educativo em saúde, o trabalho de prevenção, com toda a população e setores.

E quais atores sociais você gostaria de ver mais engajados?
Os movimentos sociais, até porque eu avalio que o movimento AIDS se enfraqueceu um pouco. Claro que sempre tem alguém que mantém a chama acesa, mas eu me refiro ao movimento AIDS dos anos 90, em que se estivéssemos numa cidade do interior do Amazonas, encontraríamos ali gente, firme na militância. É a esse tipo de articulação que eu me refiro, com força, potência, com posicionamento político firme e argumentação técnica coerente para avançar.

Qual mensagem você deixa para este coletivo da CNTE?
É um prazer imenso trabalhar com esse coletivo e eu tenho que parabenizar a CNTE por continuar incansavelmente nesse trabalho com a juventude e com toda a comunidade escolar. A CNTE é brilhante quando reafirma seu compromisso e o engajamento capaz de mobilizar uma rede forte de lideranças que, quando retorna para seus Sindicatos e salas de aula, consegue realizar um trabalho de qualidade com mobilização, articulação e resultados. Temos que continuar e avançar, porque a nossa luta continua sempre!

O coletivo DST/AIDS da CNTE está reunido em Belo Horizonte (MG). Este é o sétimo ano que o grupo de trabalho se reúne e a principal pauta do encontro, além de continuar capacitando os coordenadores, é analisar o cenário atual da epidemia e construir estratégias de sensibilização para o 1º de dezembro, que é o Dia Mundial da Luta contra a Aids.

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