Educação Escolar Indígena em Mato Grosso do Sul - Desafios e conquistas

Joaquim Adiala Hara é professor indígena formado no Magistério Indígena Ára Verá, Pedagogia e Licenciatura em Matemática Intercu em 17/04/2015

 

Para dar início ao texto, vou falar um pouco da educação indígena de Mato Grosso do Sul. Os povos existentes no estado são os povos do Pantanal (Kadiwéus, Terena, Kinikinau, Guató, Ofaié, Camba, Atikum) e os do Cone Sul (Guarani e Kaiowá).

Até onde tenho conhecimento, apenas o povo Guató, que está localizado na região do Pantanal, tem suas escolas vinculadas à Secretaria Estadual de Educação (SED), desde o Ensino Fundamental até o Ensino Médio. Já as demais etnias têm suas escolas vinculadas às Secretarias Municipais de Educação (Educação Infantil, Ensino Fundamental e algumas aldeias têm escolas de Ensino Médio). 

Neste sentido, quero falar especificamente sobre o território Guarani e Kaiowá, ao qual pertenço. As escolas das etnias Guarani e Kaiowá também estão vinculadas às Secretarias Municipais de Educação (Educação Infantil e Ensino Fundamental). 

Nós, Guarani e Kaiowá, somamos 45 mil indígenas distribuídos na região do Cone Sul do estado. Para essa população, só dispomos de cinco escolas de Ensino Médio: Escola Indígena Tengatui Marangatu, no município de Dourados; Escola Indígena Ñandejara, no município de Caarapó; Escola Indígena Ubaldo Arandu Kuemi, no município de Tacuru; Escola Estadual Indígena Mbo Eroy Guarani Kaiowá, localizada na aldeia Amambai, no município de mesmo nome; e a Escola Municipal Indígena Ñande Reko Arandul ocalizada, na Aldeia Taqueri, no município de Coronel Sapucaia. 

A população indígena do Cone Sul está distribuída em reservas indígenas, terras em litígio ou em beiras das estradas. Neste contexto, há inúmeras crianças sem ir à escola, especialmente as que vivem em áreas de conflitos. As escolas que existem não são suficientes para atender a demanda de alunos, faltam vagas na Educação Infantil, e as poucas escolas existentes têm infraestrutura precária. Nenhum governo quer assumir a responsabilidade da Educação Escolar Indígena. 

Além disso, também enfrentamos resistências relacionadas à nossa cultura, existem muitos pais indígenas que se sentem inseguros em mandar as crianças com idade entre quatro e cinco anos para a escola. A própria comunidade resiste ao ingresso na Educação Infantil. Essas são questões que merecem um debate amplo. 

Como professor indígena, formado em Pedagogia e licenciado em Matemática Intercultural Indígena, penso e defendo que a educação é o melhor caminho para discutirmos nossos problemas e construirmos juntos propostas de melhores condições de vida para as nossas comunidades. 

Acredito que precisamos preservar a nossa cultura, manter aquilo que serve e beneficia a nossa população, mas também é necessário romper com alguns costumes e aceitar aquilo que é de outras culturas e que vem a beneficiar a comunidade indígena.

Não quero pregar aqui que todos os pais indígenas devam matricular suas crianças pequenas na Educação Infantil, mas vejo que, muitas vezes, os índios aceitam com mais facilidade as igrejas, as danças e as músicas, do que a educação. Claro que todas essas situações também são importantes para as comunidades.

Eu confio na Escola Indígena. Contudo, é preciso respeitar as decisões da comunidade, os órgãos públicos precisam escutá-las, e as escolas indígenas devem ser gerenciadas pela comunidade onde estiver instalada. Não podemos aceitar as imposições do poder público. Eles acham que a educação deles vai servir aos índios, mas não deve ser assim. Nós, índios, também temos coisas a ensinar aos não índios. Porém, é importante conhecermos a escola deles, para, a partir daí, construirmos a nossa escola dentro de diretrizes que melhor atendam nossas necessidades e nossa realidade. 

Posso assegurar que é impossível a população indígena de Mato Grosso do Sul viver isolada, aprendendo apenas a língua, a cultura e os conhecimentos indígenas. Por outro lado, cometeremos um etnocídio se não ensinarmos o nosso idioma e não passarmos a nossa cultura às nossas crianças. A escola indígena tem um grande desafio a enfrentar, o de integrar conhecimento indígena e não indígena à didática pedagógica, considerando que as duas culturas são importantes.

Além disso, é preciso ressaltar a importância da formação de professores em Mato Grosso Sul, uma conquista fruto de muita luta dos Movimentos dos Povos Indígenas, que resultou na criação do Projeto Ára Verá (que significa “espaço –tempo iluminado”), um Curso Normal em Nível Médio de Formação de Professores Guarani/Kaiowá e, ainda, o Projeto Povos do Pantanal, um Curso Normal em Nível Médio de Formação de Professores Indígenas, que visa formar os professores indígenas Atikum, Guató, Kinikinau, Kadiwéu, Ofaié e Terena em Nível Médio, com habilitação para o exercício do Magistério junto a alunos da Educação Infantil das séries iniciais do Ensino Fundamental, nas comunidades indígenas. O projeto Ará Verá já formou cinco turmas e já está previsto o início da sexta turma.

Da mesma forma, garantimos a formação em Nível Superior como a Licenciatura Intercultural. Era preciso a formação superior dos docentes para dar continuidade à atuação na aprendizagem dos alunos nos anos finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio. 
Inicialmente, o projeto de formação superior estava a cargo da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), mas, antes mesmo de ser aprovado, sofreu várias modificações pela própria universidade. A instituição não estava engajada na proposta. Sendo assim, uma Comissão de Professores recorreu ao Ministério Público para retirar o projeto da UEMS. 

No mesmo período, nasceu a Universidade Federal da Grande Dourados, com ideias inovadoras e conceito de conhecimento sem fronteira. O Reitor Damião se colocou à disposição para nos ajudar. O projeto continua formando docentes indígenas e integra quatro áreas de conhecimento (Ciências Sociais Intercultural, Ciências da Natureza Intercultural, Matemática Intercultural e Linguagem Intercultural). Também é preciso mencionar o curso do Magistério Indígena e a Licenciatura Intercultural, ambos com parceria efetiva das secretarias municipais de Educação. O município de Japorã/MS também dispõe dessa parceria. 

Avaliação do I Encontro Nacional de Educadores Indígenas
FETEMS – CNTE – São Paulo/SP – Brasil

O Encontro Nacional de Educadores Indígenas foi uma grande oportunidade para conhecermos as demais realidades dos nossos parentes indígenas do Brasil e dos outros países da América Latina. Pude perceber que os sindicatos têm uma organização forte, articulada e estruturada, garantindo a essas entidades a representatividade necessária para que possam ser ouvidas pelo poder público. 

Como educador indígena, penso que os sindicatos da educação devem abrir diálogo com os professores e a comunidade indígena, apoiar as nossas lutas e fortalecer a nossa representatividade na sociedade e frente aos poderes públicos. 

Talvez no primeiro momento, essa parceria entre professores indígenas e não indígenas possa encontrar resistências, pois em tudo há interesses e dificuldades. Sem dúvida, políticos do Movimento Popular nos apoiarão, enquanto outros tentarão nos desarticular. Entretanto, vejo que é possível unir forças entre educadores indígenas e não indígenas no âmbito do sindicato.

No dia 28 de março de 2015, realizei na Aldeia Porto Lindo, uma reunião com professores indígenas e não indígenas e passei as informações sobre o Encontro Nacional. Nossa intenção é realizar um diálogo de aproximação com a FETEMS.

Fiquei extremamente agradecido com o convite de participar do Encontro. É admirável a firmeza e a luta da professora Fátima Silva [Secretária de Relações Internacionais da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE)], que tem ampla preocupação com a Educação de Mato Grosso do Sul, do Brasil e de outros países. 

Agradeço ao professor Roberto Magno Botareli que, por meio de sua equipe, tornou possível minha saída da comunidade para que pudesse representar o povo Guarani e Kaiowá. Sinto-me honrado com essa oportunidade. Espero ter contribuído de alguma forma com a FETEMS e com a CNTE. 

O povo Guarani e Kaiowá está à disposição do movimento sindical da educação de MS. Queremos muito ajudar o sindicato e também queremos que nosso povo seja ajudado no que diz respeito à oferta de uma educação de qualidade, que respeite as diferenças, as culturas e os povos indígenas.

Joaquim Adiala Hara é professor indígena formado no Magistério Indígena Ára Verá, Pedagogia e Licenciatura em Matemática Intercultural Indígena 

Face: Joaquim Adiala
Escola Tekoha Guarani – Polo – (67) 8183-4872

VEJA TAMBÉM

ESTADUAL

SIPREMS é apresentado of...

Durante o Conselho de presidentes desta quinta-feira(20), a presidenta do SIPREM...

NACIONAL

Nota do DIEESE desta...

A iniciativa pretende alterar, de maneira profunda, as regras para o acesso a ap...

NACIONAL

Política educaciona...

Os participantes analisaram a conjuntura histórica guatemalteca e abordaram as...