{"id":11389,"date":"2022-05-30T11:30:35","date_gmt":"2022-05-30T14:30:35","guid":{"rendered":"https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/?p=11389"},"modified":"2022-05-30T14:19:58","modified_gmt":"2022-05-30T17:19:58","slug":"genivaldo-sou-eu-genivaldo-e-voce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/genivaldo-sou-eu-genivaldo-e-voce\/","title":{"rendered":"Artigo: Genivaldo sou eu, Genivaldo \u00e9 voc\u00ea"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>De tantos meios cru\u00e9is e inadmiss\u00edveis para matar, a pol\u00edcia brasileira sempre surge com algo irreparavelmente insano. Em Umba\u00faba, munic\u00edpio de Sergipe, a v\u00edtima foi Genivaldo de Jesus Santos, assassinado pela Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal, com requintes de crueldade. Abafaram sua voz, seus direitos, sua vida. Abafaram tudo aquilo que \u00e9 justo e constitucional. Rasgaram as leis, jogaram ao ch\u00e3o qualquer direito de civilidade e humanidade. Direitos humanos para qu\u00ea? Para quem?<\/p>\n\n\n\n<p>As barb\u00e1ries n\u00e3o t\u00eam limites, n\u00e3o tem lugar ou hora, s\u00e3o realizadas bem no meio da rua, para todos assistirem e filmarem. Tem rela\u00e7\u00e3o com a sensa\u00e7\u00e3o e certeza de impunidade para aqueles que est\u00e3o fardados e teoricamente teriam condi\u00e7\u00f5es de carregar armas letais em suas viaturas. N\u00e3o apenas carregam, como as usam constantemente.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma c\u00e2mara de g\u00e1s improvisada ceifou a vida de Genivaldo. Nunca saberemos ao certo qual foi seu crime, mas a senten\u00e7a foi a morte: r\u00e1pida e certeira. E pasmem: no Brasil, juridicamente, n\u00e3o existe pena de morte, logo, seja l\u00e1 qual fosse o hediondo crime que Genivaldo houvesse cometido, ele deveria ir a julgamento; ou n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Pol\u00edcia arbitr\u00e1ria sentencia \u00e0 pena de morte \u00e0queles ao qual julga, no mesmo instante em que prende, n\u00e3o viver mais. N\u00e3o foi um acidente, n\u00e3o foi um acaso, foi intencional, pensado, articulado e praticado. Mataram Genivaldo com spray de pimenta e g\u00e1s lacrimog\u00eaneo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Estado democr\u00e1tico de direito deveria estar ao lado de todos, mas na pr\u00e1tica serve a uma parcela da elite brasileira e suas for\u00e7as. Ao chegar em um condom\u00ednio de luxo, a pol\u00edcia pede licen\u00e7a, espera pacientemente ser atendida e conversa passivamente com o \u201ccidad\u00e3o de bem\u201d, afinal, ele \u00e9 branco, tem dinheiro, \u201cmora bem\u201d. Muito ao contr\u00e1rio quando a pol\u00edcia aborda um cidad\u00e3o comum nas ruas, simplesmente por ser negro, ou entra em bairros de periferia. A arma logo est\u00e1 em punho, h\u00e1 tapas e socos e mesmo que algu\u00e9m se identifique, \u00e9 arrastado com chutes para um canto da cal\u00e7ada ou levado para o cambur\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Genivaldo foi executado e precisamos nos indignar sim, \u00e9 algo n\u00e3o aceit\u00e1vel moralmente. Para o soci\u00f3logo Gess\u00e9 Souza, o negro no Brasil ainda \u00e9 tratado e visto como uma subesp\u00e9cie, pois ainda vivemos vest\u00edgios da escravid\u00e3o, ao qual brancos ricos submeteram milhares de pessoas aos seus servi\u00e7os. Na obra \u201cA elite do atraso\u201d, o soci\u00f3logo deixa muito evidente essas caracter\u00edsticas ainda vividas tensamente no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia retratada constantemente tem suas ra\u00edzes l\u00e1 no per\u00edodo da escravid\u00e3o e vem perpassando gera\u00e7\u00f5es, tomando for\u00e7a durante o per\u00edodo da ditadura, e perpetuada at\u00e9 ent\u00e3o. Os que n\u00e3o se revoltam, n\u00e3o conseguem desenraizar o pensamento de poder entre as classes. Perten\u00e7o a uma classe, logo, julgarei o contexto como \u201cnormal\u201d, principalmente quando temos um governo genocida, defensor de armas e n\u00e3o de livros e embute \u00e0s consci\u00eancias o pensamento de \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O Estado \u00e9 dominante, tem regras e normas, e suas for\u00e7as s\u00e3o alicer\u00e7adas em classes, e segundo a hist\u00f3ria real a conquista, a servid\u00e3o, o reinado da for\u00e7a bruta \u00e9 o que sempre tem triunfado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1977, Engels Friedrich, escreveu em \u201cA Origem da Fam\u00edlia, da Propriedade Privada e do Estado\u201d que acabava de surgir uma sociedade que, \u201cpor for\u00e7a das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas gerais de sua exist\u00eancia, tivera que se dividir em homens livres e escravos, em exploradores ricos e explorados pobres; uma sociedade em que os referidos antagonismos n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o podiam ser conciliados como ainda tinham que ser levados a seus limites extremos. Uma sociedade desse g\u00eanero n\u00e3o poderia subsistir sen\u00e3o em meio a uma luta aberta e incessante das classes entre si, ou sob dom\u00ednio de um terceiro poder que, situado aparentemente por cima das classes em luta, suprimisse os conflitos abertos destas e s\u00f3 permitisse a luta de classes no campo econ\u00f4mico, numa forma dita legal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O Estado nasce com o objetivo de atender os anseios da classe dominante e manter a explora\u00e7\u00e3o sobre os explorados e reprimir as poss\u00edveis revoltas da classe dominada. A hist\u00f3ria \u00e9 clara e real. Vivemos desde sempre um constante conflito de interesses daqueles que det\u00e9m o poder. \u00c9 um ciclo sem fim, onde o pobre oper\u00e1rio sempre surge como dominado.<\/p>\n\n\n\n<p>Genivaldo sou eu, Genivaldo \u00e9 voc\u00ea. Precisamos nos indignar, estudar nossas origens, exigir nossos direitos, principalmente o direito b\u00e1sico a vida. Direitos humanos s\u00e3o para n\u00f3s, humanos, mas s\u00f3 valem enquanto estamos vivos, depois de mortos, n\u00e3o somos mais nada; apenas um nome usado por aqueles que pedem por justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ceyd Moreles \u2013 Jornalista, Especialista em Comunica\u00e7\u00e3o, mestranda em Letras pela UEMS.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-30-at-10.22.48-1024x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11390\" srcset=\"https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-30-at-10.22.48-1024x1024.jpeg 1024w, https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-30-at-10.22.48-300x300.jpeg 300w, https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-30-at-10.22.48-150x150.jpeg 150w, https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-30-at-10.22.48-768x768.jpeg 768w, https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-30-at-10.22.48-1536x1536.jpeg 1536w, https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-30-at-10.22.48.jpeg 1599w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De tantos meios cru\u00e9is e inadmiss\u00edveis para matar, a pol\u00edcia brasileira sempre surge com algo irreparavelmente insano. Em Umba\u00faba, munic\u00edpio de Sergipe, a v\u00edtima foi&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":11390,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[74,26,18],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11389"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11389"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11389\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11393,"href":"https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11389\/revisions\/11393"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11390"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11389"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11389"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fetems.org.br\/fetems\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11389"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}